segunda-feira, 25 maio , 2026

Doação de órgãos: uma forma de renascer

Kamila Melo Mendonça
Estudante de jornalismo

kaamilamelo@gmail.com

Nas ruas, escolas ou em festas de família. Seja qual for o lugar, as crianças gostam mesmo é de se divertir. Por isso, brincadeiras, diversão e aventuras são os maiores sinônimos desse período infantil. No entanto, alguns acontecimentos podem acabar afastando os pequenos da recreação. É o caso de Jean Cardoso. Quando tinha 4 meses, contraiu bronquiolite obliterante, uma doença rara. Nos primeiros 10 anos, teve que trocar os brinquedos por remédios, o campo de futebol pelo sofá em frente à televisão. “Eu não podia jogar bola ou brincar de esconde-esconde. Nada que envolvesse exercício”, relata.

Os pais de primeira viagem, inconformados com a situação do filho, não mediram esforços na busca de uma melhor qualidade de vida para o garoto. Foi então que descobriram um tratamento eficaz à base de substâncias industrializadas e homeopáticas. No entanto, era muito caro. Por meio de pedágios e rifas, conseguiram o valor necessário, mas ainda assim todo o processo deixava a imunidade do menino muito baixa e até da escola teve que ser afastado. “Ficava três meses em sala de aula e depois saía, porque eu pegava gripe muito fácil”, conta Jean. Somente com sete anos de idade é que entrou para a escola regular.

A realidade de Jean passou a mudar em 2004, quando seu quadro clínico agravou. Em uma consulta médica na cidade de Porto Alegre, descobriu que tinha apenas 14% da capacidade pulmonar e, consequentemente, pouco tempo de vida. Era necessário um transplante para sobreviver. O doutor José Camargo, médico que realizou o primeiro transplante pulmonar da América Latina, tornou-se o anjo da guarda e o mentor do menino nesse desafio. Ao realizar uma série de exames, foi constatado que os dois pais poderiam fazer a doação do órgão para o filho e, sem refutar, aceitaram realizar o processo.

Entretanto, não era tão fácil assim. Até o dia da operação, ele perdeu em torno de 8 a 10 quilos. Jean conta que, no dia do transplante, chegou à sala de cirurgia às seis horas da manhã e só saiu de lá onze da noite. Depois foi direto para UTI do hospital. Foram doze dias de tensão: cinco de coma e sete de adaptação aos novos órgãos. Após isso, passou por um tratamento pós-operatório que durou em torno de seis meses. Em junho de 2005, Jean retornou a Tubarão e até hoje vive uma vida normal. Estudante de Jornalismo, já atua na área que tanto sonhava desde pequeno: ser narrador e comentarista em partidas de futebol.

Assim como no caso de Jean, em outras situações, o transplante de órgãos pode ser a única esperança de vida para alguém. São mais de 33 mil pessoas na fila de espera de doações de órgãos. Os dados são do Ministério da Saúde. Em Tubarão, o Hospital Nossa Senhora da Conceição realiza o monitoramento dos possíveis doadores que se encontram na unidade, e, a partir daí, inicia o trabalho de acolhimento das famílias dos pacientes. Nesse sentido, Edvan Nunes, enfermeiro que faz parte da Comissão Hospitalar de Transplante, ressalta a importância dos esclarecimentos e uma boa conversa com os familiares. “Explicamos os benefícios que a doação trás, mas sempre respeitando a opinião da família. É preciso ter empatia e saber escutar. Afinal, é um momento delicado,” revela.

Em abril de 2018, o HNSC foi homenageado pela Assembleia Legislativa de Santa Catarina pelo serviço de amparo à família realizado com qualidade. Contudo, para Edvan, são muitos os obstáculos que ainda existem quando o assunto é doação de órgãos, afinal é difícil explicar e reverter a resposta quando já tem uma negativa. Perante isso, a estudante e doadora Julia Raquel se revolta. Moradora de Garopaba, ela não consegue enxergar um motivo para as pessoas se negarem. “Elas têm que se perguntar: e se fosse eu em uma dessas filas gigantescas esperando? A minha vida já vai ter acabado. O meu ciclo terminou. É só se colocar no lugar do próximo” fala.

Julia ainda destaca que, ao debater essas questões, muitos tabus podem ser esclarecidos. Às vezes, a população não aceita doação porque não está habituada com o sofrimento e as dificuldades de quem precisa dos órgãos.  Não sabemos o nosso futuro. Jean, com apenas 10 anos descobriu que precisaria do transplante. A única certeza que todos temos é que um dia nosso relógio biológico vai parar, mas por meio de um sim o nosso coração pode continuar batendo, ou o pulmão respirando.  Julia finaliza, “é a última boa ação que vou deixar aqui, mesmo depois de já ter ido. É parte de mim que renasce em outras pessoas”.

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